terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Breve reflexão irresponsável sobre o amor e o sexo.

Freud demonstrou como a busca pela segurança, durante a modernidade, estava baseada numa economia libidinal de repressão aos desejos e às pulsões inerentes à condição humana. É isso, em parte, que leva Foucault a demonstrar como esta mesma repressão estava diretamente relacionada à forma de coesão e de relacionamento familiar dentro do espaço doméstico (a estrutura da família burguesa pautada na repressão à sexualidade da criança e da mulher, primordialmente).
Não é por acaso que Bauman chega a comentar a obra de Foucault e dizer que se durante a modernidade a repressão à sexualidade era o que fundamentava os laços de integração familiar, hoje, em tempos pós-modernos, é a liberdade sexual entrou na lógica do consumo e é uma (privilegiada) fonte de acumulação de prazeres. O que, de forma obscena, faz com que tudo esteja implicitamente imbutido de intenção sexual, minando relações afetivas de outras ordens pelo medo patológico, por exemplo, da pedofilia (vejam o imenso número de regras implícitas que permeiam nosso contato físico com crianças hoje).
A "liquidez" do amor, para usar uma expressão de Bauman, leva a outra profusão de práticas amorosas/afetivas/sexuais que encontram dentro das teias cibernéticas de interação social uma nova forma de aceitação do amor. Tal como no msn, relacionamentos são insuportáveis quando não se pode estar/aparecer offline num clique de mouse! Tudo isto anda lado-a-lado com a liberdade hodierna em falar sobre sexo e praticar o sexo.
Acredito ser indispensável ressaltar, porém, que tudo isto está inextricavelmente ligado à visão senso-comum a respeito do amor e da sexualidade: como duas coisas que se podem muito bem separar... sem maiores problemas.
É este o centro gravitacional desta reflexão.
Comecemos por uma famosa frase de Woody Allen, nos minutos finais de seu longa-metragem "Manhattan" (sim, existe um longa do Woody Allen criativamente denominado "Manhattan"!): 'é possível realmente separar sexo e amor?' A resposta padrão é sempre "Sim, CLARO!".
Mas, se voltarmos os olhos para Lacan, vemos como, pelo processo de alienação e de separação, o desejo do sujeito surge do confronto com o desejo do Outro ou, mais específicamente, da "mOther", o Outro materno. A satisfação do desejo da criança deve passar, necessariamente, pela mediação da mãe como fonte de satisfação e pela necessidade de que este Outro tenha como fonte única de satisfação de seus próprios desejos, a criança. A impossibilidade dessas duas condições é que leva a criança a criar um 'objeto pequeno a' (objeto-causa do desejo) que servirá de suporte da sua fantasia e será protegido por ela, encontrando nesta fantasia a possibilidade de uma "encenação da satisfação de um desejo imperioso", para usar as palavras de Fernando Marcelino, uma vez que a satisfação real é impossível. Com isso passamos a buscar, longe do Outro materno, TODAS as outras formas de satisfação do nosso desejo.
A primeira conclusão é que todo o desejo nasce do amor materno! Do ponto de vista psicanalítico, pelo menos, a função do amor materno é a criação do desejo, sexual inclusive (ou principalmente?).
Se, politizando Lacan, pensarmos com Žižek na idéia lacaniana de que amar é dar o que não se tem para alguém que não o quer, de qualquer forma, encontramos aqui um desequilíbrio fundamental. E fundamental porque de fato funda o amor, dentre outras coisas pela paranóia constante do medo de perder a pessoa amada, afinal nunca se sabe, precisamente, porque ela ama! O amor é, portanto, uma quebra radical do equilíbrio normal das coisas. O Amor é Mau!
E aqui há uma face política do amor. O Amor como Evento perturbador. E uma contrapartida revolucionária da lógica da sexualidade e do amor pós-hippie: O Amor é Mau!
Voltando a pergunta de Woody Allen, 'é possível separar sexo e amor?', sabendo que o cineasta é um neurótico extremamente freudiano: voilà! A resposta é Não! O que significa que a maneira verdadeiramente revolucionária de encarar o sexo e o amor (que é mau) é vislumbrando um risco sempre presente de o segundo se irromper no primeiro. De o Amor destruir o equilíbrio "normal" do sexo e do prazer, da mesma maneira com que devemos encarar o Evento político: assumir integralmente o risco e a responsabilidade por ele.
Como nos ensinam Ocean Colour Scene:
"cos we all take our chances to find out romance is in someother's bed
And you might burn your fingers hock your best rings for those
who'd have you standing naked, then, publicly auction the use of a hose".

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

Prefácio à coleção "Short Circuit" de Slavoj Žižek.

A coleção "Short Circuit" foi lançada pela MIT Press, nos EUA, reunindo livros como "The puppet and the dwarf: the perverse core of christianity" de Slavoj Žižek; "The Shortest Shadow: Nietzsche's philosophy of the two" de Alenka Zupancic; "Is Oedipus online? Siting Freud after Freud" de Jerry Aline Flieger e, finalmente, "Interrogation Machine: Laibach and the NSK" de Alexei Monroe, de onde retirei o prefácio à coleção que traduzi "livremente" para o blog.

Prefácio à Coleção.

Um curto-circuito ocorre quando há uma conexão falha na rede - falha, é claro, do ponto de vista do funcionamento normal da rede. Não seria o choque do curto-circuito, portanto, uma das melhores metáforas para uma leitura crítica? Não seria um dos procedimentos críticos mais efetivos cruzar fios que geralmente não se tocam: ler um clássico maior (texto, autor, uma idéia) por meio de um curto-circuito, através das lentes de um autor, texto, ou aparato conceitual "menor" ("menor" deve ser entendido, aqui, no sentido deleuziano: não de "menor qualidade" mas de marginalizado, desacreditado pela hegemonia ideológica, ou lidando com um tópico menos digno, mais "baixo")? Se a referência menor é bem escolhida, tal procedimento nos leva a "insights" que podem despedaçar e minar completamente nossas percepções comuns. Foi isso que Marx, entre outros, fez com a filosofia e a religião ('curto-circuitizando' [short circuiting] especulação filosófica através das lentes da economia política, da especulação econômica); foi isso que Freud e Nietzsche fizeram com a moral (curto-circuitizando a mais elevada noção ética através das lentes da economia libidinal inconsciente). O que tal leitura atinge não é a simplesmente a "dessublimação", ou a redução do mais elevado conteúdo intelectual para sua causa econômica ou libidinal mais "baixa"; o objetivo de tal aproximação é, ao contrário, a inerente descentralização do texto interpretado, que traz à luz seu "impensado", seus pressupostos e consequências não declarados.

É isso que "Short Circuit" quer fazer. A premissa básica da coleção é que a psicanálise lacaniana é um instrumento privilegiado de tal aproximação, cujo propósito é iluminar um texto padrão ou uma formação ideológica, tornando possível sua leitura de uma forma completamente nova - a longa história de intervenções lacanianas na filosofia, na religião, nas artes (das artes visuais ao cinema, música e literatura), ideologia e na política justifica essa premissa. Essa, portanto, não é uma série de livros sobre psicanálise, mas uma série de conexões no "campo freudiano" - de curtas intervenções lacanianas na filosofia, teologia e ideologia.

"Short Circuit" pretende reavivar a prática da leitura que confronta um texto, um autor, uma noção clássicos com suas próprias pressuposições ocultas e, assim, revelar sua verdade não-declarada. O critério básico para os textos que serão publicados é que eles efetuem tal curto-circuito teórico. Depois de ler um livro dessa coleção, o leitor não pode simplesmente entender algo novo: a questão é, ao contrário, deixá-lo ciente de outro lado - perturbador - de algo que ele ou ela sempre souberam, o tempo todo!

Slavoj Žižek.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Elogio a revolta contra o pacote de ajuda as montadoras.

Mais uma publicação roubada do blog Transhumano

"A Casa Branca anunciou nesta sexta-feira que está considerando a possibilidade de usar parte dos fundos do plano de resgate financeiro, de US$ 700 bilhões, para impedir a quebra dos fabricantes de automóveis em crise, depois que os congressistas não conseguiram acordo para um projeto alternativo". O governo de São Paulo também anunciou uma linha de crédito de R$ 1,2 bilhão para financiar empresas de máquinas e autopeças. Os golpes cleptocratas continuam...
O setor de produção automobilística é um dos grandes motores da reprodução do capital historicamente desde o início do século XX. Apenas a necessidade objetiva e estrutural de uso dos fundos públicos para o salvamento das gigantes General Motors, Ford e Chrysler já não é sintomático em relação aos novos padrões que estão se estabelecendo sob a hibridização do Estado com o capital diante de sua crise estrutural hoje? Se de 1945 a 1968 foram os anos glorisos do capitalismo, a fase que iniciou em meados de 1970 e se fecha em 2008/2009 demonstra os limites historicos do capitalismo que, inevitavelmente por sua lógica de expansão e acumulação, buscará novas saídas de reprodução ALÉM do capital financeiro e do neoliberalismo, dominantes sob a etapa de desenvovimento durante os últimos 40 anos. Uma volta é impossível. Usando do reducionismo, não existe volta das forças produtivas. Qual será a nova tentativa de buscar novos nichos de reprodução? Ou ainda, mais importante, as rebeliões do devir conseguiram dar respostas satisfatórias rumo a superação radical do metabolismo global do capital diante da atual crise que mostrase apenas nas primeiras etapas? Arrisco até dizer que estão voltando os fantasmas das rebeliões e das revoluções diante da crescente intensidade da violência objetiva que (des)estrutura a realidade global hoje

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Para Zizek, crise tem paralelos com 11 de Setembro e revela a fragilidade e as contradições do capitalismo

[roubado diretamente do blog do meu amigo Fernando, o Transhumano, Segue a entrevista de Žižek ao Globo, quando o filósofo esteve no Brasil]


O filósofo esloveno Slavoj Zizek esteve no Brasil em outubro (Rio, Salvador, São Paulo) para lançar "A visão em paralaxe" (Boitempo) em que reflete sobre questões atuais buscando revitalizar a dialética de Hegel e destaca a importância da psicanálise no reino das ciências cognitivas. Nesta entrevista, conta quais são suas impressões do país e analisa os novos dilemas da crise financeira internacional, a qual, em sua opinião, tem paralelos profundos com o choque causado pelo 11 de Setembro. Diz que em Marx não há como encontrar respostas para a crise. Segundo Zizek, é possível que as partes mais dinâmicas da sociedade no mundo hoje não estejam evoluindo em direção a democracias.

O GLOBO: Como foi sua passagem pelo Brasil?
SLAVOJ ZIZEK: Para mim, a cidade é São Paulo. Embora o usual seja dizer que a Bahia é o máximo, com uma imagem relacionada ao carnaval e ao prazer de viver, prefiro São Paulo. Gosto de cidades grandes, vidas orsanizadas, espírito de trabalho, disciplina. Eu não poderia me imaginar morando na Bahia. Mas gosto também da estrutura não-rtransparente da cidade de São Paulo, ao contrário do que é Nova York, com suas ruas definidas com números. Mesmo no Rio, a estrutura é mais transparente. São Paulo é mais caótica. Agora, tem algo de que gosto no Rio e também na Bahia. E isso me fascina no Brasil: vocês não escodem suas favelas. Um quarteirão pode ser muito rico e, logo depoi!?, vem a favela. O que faz uma cidade bonita não são as praias bonitas etc; eu gosto do caos, do caos vibrante. Veja, em Nova York não suporto quando entramos numa cafeteria e há esse ambiente de normalização: um garçom se apresenta, diz que está nos servindo, pergunta se tivemos um bom dia e se estamos bem. Não gosto dessas amizades pseudo-ritualizadas. Agora, um evento mítico para mim a respeito do Brasil é o de Canudos, na Bahia, cuja história conheci através do livro de Mario Vargas Llosa ("A guerra do fim do mundo"). Foi uma comunidade que conseguiu sobreviver no meio do nada por muito mais tempo que a centena de comunidades de socialistas utópicos que se multiplicavam nos EUA na época. Há algo miraculoso com Canudos.

É um tipo de auto-suficiência insustentável hoje, não?
ZIZEK: Não digo que devemos transformar o mundo numa grande Canudos, mas faz pensar e em questões interessantes. Na questão alimentar, é impossível hoje a auto-suficiência. Quando a há necessidade de ajuda alimentar, o dinheiro custa a chegar. As grandes potências já reconheceram sua falência nisso. Na questão ecológica, muita gente fala de aquecimento global, é um blá-blá-blá. Li recentemente que milhares de pessoas morrem na Inglaterra esperando por operações de câncer. Mas agora temos uma crise financeira e não houve problema em se obterem bilhões de dólares em poucos dias. É a força real do capital. Há algo irônico nisso: usa-se o dinheiro para restabelecer crença e confiança. É sugestão, parece mágico. Aos poucos, vemos as limitações do sistema.

Vê paralelo entre o impacto desta crise com o que se viu no pós-11 de Setembro? No primeiro caso, a crise chegou de fora; agora inicia-se dentro...
ZIZEK: Paralelos profundos. O 11 de Setembro foi importante por suas dimensões ideológicas. Agora, há um choque equivalente. Primeiramente, os EUA sempre gostaram de se ver como uma ilha de segurança. Além disso, simbolicamente o 11 de Setembro representou o fim da utopia. Não da utopia socialista ou relacionada ao sistema de proteção social, mas a utopia de Fukuyama, que decretara o fim da história, depois da queda do Muro de Berlim, num período de expansão do capitalismo liberal. Foi o fim dessa era feliz. Voltou-se à História, aos conflitos locais entre os povos. Se o 11 de Setembro causou um choque de cunho mais político e militar, agora atinge-se a utopia do capitalismo liberal . Pode-se até superestimar as atuais consequências da crise - acho que não haverá uma gigantesca recessão -mas há um choque nos aspectos utópicos da globalização econômica. E repare que a linguagem usada pelo presidente Bush é praticamente a mesma que usou depois de 11 de Setembro. "Nosso estilo de vida está em perigo, devemos esquecer nossas difenreças políticas, nos unir todos pelo país". Um tanto irônico.

Obama repete o discurso?
ZIZEK: Ele fez algo certo num debate com McCain, quando este disse que era hora de esquecer diferenças políticas. Obama disse não, que aquela era a hora do debate. O que devemos fazer? Esta é a verdadeira questão para mim, o verdadeiro debate político? como proceder para lidar com as limitações do sistema. Isso se relaciona a uma visão politica. Sabemos, também, que os modelos conhecidos para agir no mercado não são a verdadeira alternativa. Nem o antigo socialismo de intervenção direta, nem algo mais latino-americano, como uma economia de Estado populista, como a de Hugo Chávez. Talvez algo diferente esteja ocorrendo na China. É preciso encontrar novas formas coletivas de ação. Há decisões básicas que não podem ser deixadas nas mãos do mercado, mas meu ponto é: na verdade muitas delas não estão nas mãos do mercado. Há uma hipocrisia nos paises desenvolvidos que é preciso confrontar. Eles pregam uma economia liberal para os paises de terceiro mundo, mas violam as regras o tempo todo. Os EUA financiam seus produtores de algodão para que este não seja comprado na África, como no Mali, onde a produção é mais barata e os fazendeiros moram nas favelas. O subsídio americano a esses agricultores nos EUA é maior que o PIB do Mali. Então, a crise nos deixa com o pé atrás não apenas em relação ao livre mercado, mas de certa forma nunca houve livre mercado. Veja a União Européia: metade do seu orçamento é para subsidiar agricultores. Os limites estão ficando claros, e temos um grande desafio quanto ao que fazer.

O momento é, portanto, de grande indefinição.
ZIZEK: Isso é outra coisa que me choca. Veja, cada vez mais o capitalismo tem dificuldade de trabalhar no nível da propriedade intelectual, para definir quais são os direitos legais desta. Na internet, há algo nos produtos intelectuais que resiste à propriedade privada. A economia digital tem um fundo socialista; os produtos foram artificialmente adaptados na fórmula capitalista, mas não funciona muito bem. Quero dizer que vivemos em tempos interessantes, em que há grandes confusões. Agora, com esta crise, alguns dos meus amigos cairam na armadilha de dizer que temos a chance de voltar à economia real, e sair da especulação virtual. Ora, não há "economia real". Trata-se de uma maravilhosa contradição. Um dos slogans desde setembro é que devemos abandonar a especulação Irreal. Também se diz que é preciso salvar os bancos, sob o risco de uma gravíssima crise. É preciso salvar o banco porque o dinheiro é real. Devemos superar essas metáforas ingênuas. O fato é que há um mecanismo irracional em jogo. É preciso não só acreditar, como acreditar que os outros acredi- tam. Talvez a melhor solução seja não fazer nada. Se os governos põem tanto dinheiro, então a mensagem é que o problema é mesmo profundo. Quanto mais se tenta resolver o roblema, mais pânico se gera. tudo frágil, baseado em confiança. Isso é algo louco sobre o capitalismo.

Está se voltando a Marx...
ZIZEK: E ainda mais a Keynes. No meu caso, posso dizer que Marx não tem repostas, mesmo que tenha insights do mecanismo do capitalismo. Para Marx, a mais importante fonte de valor é o trabalho. Mas ele próprio disse algumas vezes que, com o desenvolvimento tecnológico, o fator chave na produção deixaria de ser o trabalho mecânico. O conhecimento e as especialidades passariam a ter outra importância. Estamos neste nível hoje. Marx não é a resposta, mas devemos repetir, hoje, a mesma pergunta que fez em relação ao capitalismo do século XIX. Temos algumas tentativas teóncas, como no caso de Antonio Negri ou Giddens, mas é jornalismo teorético. Hoje temos um bom argumento a favor do capitalismo. Em geral, diz-se que leva a alguma liberdade, mesmo com periodos de ditadura, como no Chile. Mas não concordo com quem diz que, com o desenvolvimento, daqui a 20 anos a China vai se democratizar. Algo muito dinâmico está se produzindo lá, genuinamente novo. Talvez o dinamismo da sociedade não esteja se movendo em direção à democracia. Isso deveria nos preocupar. Vejamos a VenezueIa. Não sou pró-Chávez, mas ele foi o primeiro que tentou mobilizar politicamente os excluidos nas favelas. Como era o pais antes de Chávez? Era melhor para os excluidos?

O exercício de paralaxe, uma certa desconstrução do olhar, é pois fundamental.
ZIZEK: Sim, mas vamos esquecer agora a politica. Meu coração está na primeira parte do livro ("A visão em paralaxe''). Busco revitalizar a dialética de Hegel. Na segunda parte tento salvar a psicanálise do ataque das ciências cognitivas, e mostrar como podem colaborar entre si. Sou a favor de Hegel mesmo contra Marx. A visão de Marx sobre Hegel foi um .r equívoco. Hegel é capaz de nos o oferecer respostas mais proe fundas. Não apenas políticamente. Precisamos de filosofia. Hoje, os cientistas conseguem conectar diretamente o neurônio a um computador, que, assim, permite que se faça movimentos apenas com o pensamento. Modifica-se a percepção do que é ser humano. Nisso Fukuyama estava certo, ao falar sobre as transformações da biogenética. A liberdade não está perdida, mas quando nos tornamos tão mestres de nós mesmos, algo na liberdade se modifica. Devemos pensar muito a respeito.

O que seria a "merda divina" de que fala no livro?
ZIZEK: E irônico, ligado a Martinho Lutero. Para ele, o ser humano é o pedaço de merda que caiu do ânus de Deus. É a mais horrivel definição do ser humano. Não é fácil explicar aqui, mas se relaciona ao fato de que quando você aceita que está totalmente abandonado por Deus, está na posição de Cristo na cruz, que pergunta "pai, porque me abandonaste?". Algo inacreditável aconteceu ali. Todos fomos abandonados, inclusive Deus. Por um momento, Deus também se tornou ateu. Ficamos sós, a comunidade dos crentes sem Deus. Sou totalmente ateu, mas acho que no cristianismo encontramos certa lógica coletiva, uma lógica de emancipação coletiva que pe absolutamente crucial e preciosa, hoje mais do que nunca.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Ninguém entendeu um Mod. Parte I: o excesso da modernidade

Foi Žižek quem afirmou que as figuras de Martin Luther King e dos episódios de maio de 68 foram cooptadas pela ideologia do liberalismo multiculturalista contemporâneo.

Para ele, Martin Luther King não teve um simples sonho de tolerância racial, mas um sólido projeto político de esquerda, utópico, que envolvia uma crítica político-econômica do capitalismo e da democracia liberal.

Assim como os episódios de maio de 68 não representaram uma simples revolução em nome do slogan "sexo, drogas e rock and roll", ou melhor, o próprio slogan continha nas entrelinhas um projeto político emancipatório crítico, de esquerda.

As imagens equivocadas destas figuras são produto de uma (des)apreensão, no sentido žižekiano do termo, dos fenômenos reais pela fantasia estruturante da ideologia multiculturalista e arrisco dizer que o mesmo se passa com a cena Mod.

Além de uma simples tribo urbana com gostos para roupas e músicas compartilhados por seus membros, existe uma mensagem política que precisa ser apreendida. Não creio que o termo Mod se refira à expressão modern rockers, mas, num sentido muito mais radical, penso estar ele relacionado ao termo modernists e aqui, os vínculos com a própria modernidade podem servir de rica matiére a pensére.

Žižek aponta, apoiado pela psicanálise, nos filmes de Hitchkock uma interessante transformação: a maneira como, nos anos 60, seus filmes deixam de lado a figura simbólica do pai e passam a se focar no superego materno. Para o filósofo esta transformação é crucial para a compreensão da crise da modernidade uma vez que ela se pauta na desintegração das famílias tradicionais burguesas bem como do Estado-Nação. O desaparecimento da figura paterna no espaço doméstico e a desintegração da figura paterna no espaço público.

Isto quer dizer que os sujeitos que surgem neste contexto têm grande dificuldade em lidar com mandados simbólicos, significantes mestres em seu não-senso. Não custa lembrar que Žižek aponta esta como a característica principal do sujeito "pós-moderno", que constantemente é chamado, desde criança, a se politizar no espaço doméstico e a se despolitizar, ou se infantilizar, no espaço público. Crianças têm a oportunidade de participar das decisões familiares, mas adultos não podem participar das decisões políticas cruciais aceitando cinicamente a democracia liberal como "verdade", ainda que saibam que ela não funciona.

Pois bem, minha hipótese é que este panorama está umbilicalmente ligado ao surgimento da cena (ou movimento?) Mod: os órfãos da guerra que não mais se identificam com sua nacionalidade, mas com o grupo de jovens que compartilham dos mesmos gostos e hábitos.

Quando o Estado-Nação, que como Žižek aponta, organiza a fantasia em torno dos nossos desejos pessoais por meio dos mitos nacionais, e portanto cria os nossos hábitos e gostos nacionais, se desintegra, rivalidades, violências e intolerâncias não se dão mais entre diferentes nacionalidades, mas entre diferentes grupos artificialmente formados. Não é o caso do fatídico episódio de 64 em que Mods e Rockers se confrontaram até a morte na praia de Brighton?

A estética e o comportamento Mod também tem íntima relação com a modernidade: uma aparência burguesa civilizada (e levemente subvertida, é verdade) conjugada com um comportamento agressivo e transgressor. Não é esta precisamente a cara da Modernidade? Uma empreitada aparentemente racionalizadora e civilizadora que esconde uma dinâmica violentíssima de subversão dos costumes tradicionais de todas as localidades ao redor do globo?

Parece, portanto, que a desintegração da figura paterna permitiu que este excesso constitutivo da modernidade viesse à tona personificado na cena Mod. E talvez esta dimensão deva ser resgatada para nos questionarmos o significado político desta aparição e inclusive da cultura que se forma nas duas últimas décadas na cidade em que vivo, Curitiba. Se é bem verdade que, ao menos nas músicas, houve pouca referência da cena Mod a posturas políticas abertamente de esquerda, a arte produzida foi extremamente transgressora, violenta e com a mesma pretensão universalizante. Não seria a hora de discutir o potencial universalizante desta cultura e porque e para que ela ressurge precisamente em São Paulo da década de oitenta e no sul do Brasil em meados da década de noventa?

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Uma breve reflexão sobre o Direito e a Crítica ao Direito

Um grande amigo porto-alegrense (e gremista!) por quem tenho muito apreço, publicou em seu blog Tunel no Fim da Luz um artigo chamado "A Arrogância da Crítica ao Direito" em que, como bom crítico que é, defende a crítica embora se posicione abertamente pela leitura responsável da dogmática jurídica como viabilizadora de conquistas democráticas sem que se lhe torça o nariz a pretexto de uma pretensa postura crítica.

Gostaria, amistosamente é claro, de levantar a bandeira contrária.

Em O Sujeito Lacaniano Bruce Fink explica sucintamente a “entrada” do indivíduo na ordem simbólica, na linguagem, pelas operações da “alienação” e da “separação” (categorias cruciais para o pensamento lacaniano). Com a devida licença gostaria de resumir ainda mais (assumindo toda a responsabilidade por isso) tal processo.

A alienação, basicamente, consiste na maneira como o indivíduo se confronta com o fato de que ele e o Outro materno (Fink utiliza-se da expressão “mOther”) não são um só corpo, de que há uma secção entre eles. A criança percebe que seus desejos (e vale lembrar que é temerária a expressão ‘desejo’ nesse momento) não podem ser imediatamente satisfeitos, uma vez que a mãe possui outros desejos diversos da criança. É o primeiro encontro com o desejo do Outro. A reação da criança portanto é tentar atrair o desejo da mãe, obrigada assim a falar para que suas necessidades sejam satisfeitas. E aqui o indivíduo se torna sujeito, pois nesta entrada no mundo da linguagem, percebe que há um lugar previamente definido para ela e que não pode ser, não pode existir fora dele.

A separação, posteriormente, é o processo pelo qual, sabendo desse desejo, dessa falta do Outro, o sujeito da linguagem percebe que não pode satisfazê-lo. Sobra neste processo a causa do desejo ou o chamado “objeto pequeno a”, que é a causa do desejo do próprio sujeito, que também se percebe um sujeito a quem “falta algo”. Esta causa do desejo é “real” no sentido lacaniano do termo, ou seja não é simbolizável, não pode ser expressa em palavras, não é identificável como “elemento do Outro” (pois estes são só os significantes).

A questão é que este objeto causa do desejo é traumático. De forma que o sujeito se vê obrigado a “construir uma realidade” em volta dele e precisamente para evitar o encontro com ele. Ele precisa, portanto, organizar e estruturar a realidade em torno do seu desejo. Esta moldura em torno do desejo é o que Lacan chama de “fantasia” e o que o leva a afirmar que a realidade tem a estrutura de uma ficção. Uma ficção que determina o que é possível e o que é impossível para o sujeito, o que é “realidade” e o que é “ilusão”.

Pois bem, Slavoj Žižek em O Espectro da Ideologia argumenta que é indiscutivel a existência de coordenadas ideológicas para a operacionalidade da política em tempos de "pós-política" e defende a imperiosa necessidade de uma crítica à ideologia e de uma reinvenção da utopia para a superação dos problemas estruturais próprios do nosso contexto histórico.
O que o filósofo demonstra magistralmente é que a ideologia tem a mesma estrutura desta fantasia lacaniana, ou seja, é um discurso, uma linguagem, construída em torno do trauma dos indivíduos interpelados, para lhes dar um senso de realidade, para dizer-lhes o que é possível e o que é impossível segundo suas coordenadas e, conseqüentemente, operacionalizar sua própria atuação em seu lugar de poder.

Neste mesmo artigo, o pensador esloveno afirma categoricamente estar do lado de Althusser e contra Foucault no que diz respeito à forma como o poder se exerce. Não como uma complexa rede de poderes microfísicos (complexidade esta denunciada como insatisfatória por Žižek), mas como um discurso previamente estruturado e que precisa chegar aos lugares centrais de poder para obter o mínimo de eficácia sobre os indivíduos a ele submetidos, pelo processo de construção da realidade operado pela Ordem Simbólica.

Não custa lembrar que Althusser em seu clássico Aparelhos Ideológicos de Estado faz referência expressa à psicanálise freudiana (embora não se utilize de Lacan) para explicar como a Ideologia se exerce pela interpelação discursiva de indivíduos e como ela se baseia na “evidência de evidência” ou seja, de como ela constrói por seus próprios pressupostos, o que seja evidente (atemporal, apolítico, verdade eterna e incontestável, etc.) e o que seja impossível. E, isto não é segredo, Althusser aponta o Direito como um dos Aparelhos Ideológicos de Estado (AIE’s).

Žižek, em Looking Awry: an introduction to Lacan through popular culture demonstra como a Democracia liberal é a forma discursiva, a ordem simbólica do capitalismo, interpelando indivíduos e organizando suas fantasias em torno do seu objeto a, da mesma forma como, os já enfraquecidos “Estados-Nação”, o faziam com o culto a mitos nacionais. Se hoje os Estados-Nação prestam um papel menos relevante para o cenário cultural contemporâneo, é o multiculturalismo tolerante e a era da chamada “pós-política” ou o fim da história como impossibilidade de transformação política radical, que cumprem o papel de organizar nossas fantasias, ou seja, que cumprem o papel da Ideologia. Indo ainda mais adiante, Žižek chega mesmo a afirmar que a teoria da sociedade do risco é que cumpre o papel primordial de agência ideológica hoje (O Elogio da Intolerância).

O que nós pensamos como politicamente possível ou impossível é determinado por uma fantasia estruturante que é a própria ideologia. Um dos exemplos mais utilizados pelo filósofo de Liublijana para ilustrar esta idéia é a maneira como encaramos a ecologia. Para ele, existe aí uma fantasia estruturante que precisa ser desfeita se pretendemos sinceramente encarar o problema “real” da ecologia, afinal hoje parece mais fácil imaginar o fim de toda a vida na terra do que uma mudança muito mais modesta no sistema de produção capitalista cuja dinâmica foi responsável pela própria relação exploratória do homem com a natureza. É por isso que o pensador insiste numa distinção de Etienne Balibar entre política e polícia. Polícia seria todo o ato de um poder já estabilizado para manter a própria estrutura de poder, a própria divisão da sociedade conforme a funcionalidade deste poder. Política, por outro lado, seria um Evento que mudaria as coordenadas já estabelecidas, um ato verdadeiramente impossível. Por isso a insistência de Žižek em “Arriscar o Impossível” (nome do seu livro de entrevistas realizadas por Glyn Daily).

Este evento seria o que nosso filósofo chama de “suspensão política da ética” ou seja, um acontecimento que, justamente por contestar fantasia estruturante existente, não pode ser ético nem antiético, mas apenas Político, no verdadeiro sentido da palavra, uma vez que a ética, aqui, também é um dos elementos da ideologia. E neste sentido, por diversas vezes, esta ética específica (pois Žižek, assim como Badiou postulam uma outra Ética, com ‘E’ maiúsculo) é confundida com o Direito, com as normas vigentes do ordenamento jurídico. E é Safatle quem, no posfácio de Bem-vindo ao Deserto do Real de Žižek, afirma que a suspensão do ordenamento jurídico é a única garantia de que a história não se reduza a um tempo morto e sem acontecimentos.

Desta forma a crítica ao Direito deve sim ser intolerante e talvez arrogante! Por óbvio estou a par das posições de Zaffaroni, como meu amigo Mayora apontou. E por certo que como crítico que sou (e devo dizer: socialista!) não acredito que o melhor seja deixar a operacionalização do direito e mesmo as discussões teóricas dogmáticas nas mãos de conservadores (e aqui reconheço a importância de um trabalho de contenção de dentro do Direito). Mas esta operacionalização e suas reflexões teóricas devem ter plena consciência do limite rígido que o Direito impõe a todo e qualquer ato político verdadeiramente libertário, inscrevendo os atos dos juristas em uma ambivalência inarredável.

De volta ao blog.

Chegou a hora, há muito postergada, de voltar a escrever neste blog.
No último texto estava muito comprometido com a leitura de autores "pós-modernos" (utilizando-me do termo de forma bastante genérica e 'quase irresponsável') e passava por uma profunda crise em relação a minha posição como socialista e minha relação com os textos marxianos e marxistas. Agora chegou a hora de declarar o que fica e o que some daquilo que escrevi anteriormente.

Cheguei a escrever no primeiro texto que passava por uma certa angústia de ter que desconstruir o marxismo para reconstruí-lo posteriormente sem saber que pedaços se perderiam no caminho. Acredito que, com a ajuda de bons autores, este é o processo pelo qual estou passando atualmente. Por outro lado cheguei a afirmar que precisava deixar de lado a leitura de autores como Giddens, Bauman, Galimberti e até mesmo Corbisier, Žižek e Lenin. Pois é... eu menti!

Na verdade não consegui me distanciar de Corbisier e principalmente de Žižek, além de ter voltado a me deparar com Lenin através do filósofo esloveno. Na publicação de outubro de 2007 da revista Cult sobre a 'Renovação da Esquerda' tive contato com alguns autores que hoje me são cruciais para a compreesão desta 'pós-modernidade' e de sua relação com o marxismo e a esquerda de forma geral: o próprio Žižek, Vladimir Safatle, Alain Badiou etc. E este primeiro contato me permitiu voltar confortavelmente à leitura de alguns clássicos marxianos como Althusser, Corbisier (que considero, particularmente, um clássico nacional) etc., além de me ter trazido uma praserosíssima reconciliação com a psicanálise lacaniana, abandonada irresponsavelmente por mim há algum tempo.

Com isso, pretendo reinaugurar o blog expondo, a partir de agora, alguns pensamentos pontuais que têm como referencial, sobretudo, a obra de Slavoj Žižek.

Bem vindos de volta ao blog!